'Strike a Pose': Wagner Schwartz fala sobre dança voguing e a participação de José Xtravagazna na Bienal Sesc de Dança
0%Overall Score
Reader Rating: (0 Votes)
0%

“Strike a Pose” poderia ser um grito de guerra de gente que dança, que quer afirmar sua identidade desafiadora. É tudo isso, e também o nome do documentário sobre os dançarinos de voguing que fizeram a turnê “Blonde Ambition” ser o que for.

O filme de 2016, junto com “Paris is Burning” (1991), sobre os primórdios do voguing, será exibido nesta segunda, 18/9, na Bienal Sesc de Dança, em Campinas. O melhor da história: José Gutierrez, mais conhecido com José Xtravaganza, estará presente, para um bate-papo com o público após a exibição. E ainda, nesta terça (19/9), o artista dará uma oficina de voguing para os felizes participantes que conseguiram se inscrever (sim, já está mais do que lotada).

A ideia de trazer o dançarino norte-americano surgiu das conversas entre os curadores da Bienal, que assistiram ao documentário “Strike a Pose” quando estavam começando a pensar na programação do evento. Na entrevista abaixo, Wagner Schwartz, um dos curadores, discorre sobre a importância do “voguing”.

***

O que o voguing tem a dizer sobre o presente? 
O voguing não tem nada a dizer sobre o presente. Ele é o presente. Ele é a voz, o gesto, a pose de pessoas que foram marginalizadas por uma comunidade branca, privilegiada. Que fique claro, esses privilégios são apenas de ordem econômica. Esteticamente, o voguing construiu sua própria casa, “sem lenço, sem documento”. É um fato histórico, real, e tão potente que a indústria cultural não deu conta de existir sem a sua manifestação. Não é de hoje que a atividade vinda dos bairros interpela quem está nos centros.

Na programação da Bienal especificamente, o que o voguing tem a dizer e como conversa com as obras e com os temas que foram surgindo a partir da escolha dos participantes? Como isso permeia a programação? 
Às vezes, essa atitude chamada “voguing” conversa diretamente com alguns trabalhos programados nessa Bienal. Faz parte de sua concepção. Outras vezes, pode estar presente como propositora de um pensamento miscigenado. Em outras ainda, o voguing não está diretamente ligado a um trabalho programado, mas faz parte do mesmo universo, nomeado como Bienal, como parte constituinte de seu desenho. E se diverte, sempre.

O que o voguing representou quando ‘estourou’ há décadas, e como sobrevive nos dias de hoje?
Acho difícil responder essa pergunta, porque acredito que o que experienciei fora do Harlem foram as faíscas desse estouro. No entanto, essa explosão inaugurou um espaço de existência em vários cantos do mundo, ou, poderíamos dizer, um acontecimento. Não sou um especialista, e, infelizmente, não sou um “voguer”. Sou apenas alguém que
acompanha esse movimento, que se culturaliza com ele.
O voguing não sobrevive nos dias de hoje, ele é aquilo que constitui os dias de hoje. Ele não pode ser observado como uma ação estética distante do movimento criado pelos privilegiados economicamente, considerados como aqueles “capazes de elaborar os dias de hoje”, muito menos como a dança de Madonna. É importante lembrar que, para criar o seu videoclipe, ela aprendeu a dançar com os “voguers”. Sem eles, sua música não teria nome, ritmo ou corpo. E ainda, “Vogue” foi coreografado por Luis Xtravaganza Camacho e por Jose Gutierez Xtravaganza – segundo entrevista feita com o próprio Jose– mesmo que em vários sites espalhados pela web possamos encontrar o registro de que foi Karole Armitage, mais conhecida como a “bailarina punk”, quem assinou a coreografia. Segundo Jose, ela foi despedida. Nos dias de ontem e de hoje, ainda é preciso nomear esses criadores para que sejam dados a eles os créditos daquilo que experienciamos, visto que quem leva a fama, “ad infinitum”, são aqueles a quem foi dado o poder de narrar.

Por que esses bailarinos são de certa forma ignorados hoje em dia?
Porque eles pertencem a uma comunidade cuja história só tem sido reconhecida através da produção simbólica de uma star.

Você disse que viu o filme quando estava começando a trabalhar na curadoria da Bienal, certo? 

Assisti “Strike a Pose” pela recomendação de Karin Serafin (bailarina do Grupo Cena 11), um pouco antes de começar a trabalhar na curadoria da Bienal. Assisti “Paris Is Burning” na década de 1990.

Então, quando teve a ideia de trazer o Gutierrez para cá, como fez? Como foram as conversas sobre isso com os outros curadores, o que eles acharam?
Claudia Garcia, Fabrício Floro e eu havíamos assistido “Strike a Pose” quase ao mesmo tempo e compartilhávamos nossa experiência, com entusiasmo nos encontros pessoais e nas redes sociais. A maioria de nossos amigos e colegas estava discutindo a aparição desse filme. Lembro-me da crítica precisa e severa de Anderson do Carmo, publicada no jornal “Notícias do Dia”, de Florianópolis, em abril, sobre esse documentário:
“Duas décadas atrás a internet não era a enciclopédia imediata de hoje, e o máximo de informação (que tínhamos sobre o videoclipe) eram os nomes do álbum para o qual a música fora gravada e o nome do diretor do vídeo: respectivamente “I’m breathless” e David Fincher. Ambos apareciam como legendas na televisão. Os nomes dos  dançarinos – baphonicos, diga-se de passagem – que preenchiam o entorno da rainha do pop eram, no entanto, desconhecidos até recentemente. Se popularizou a narrativa, endossada pelo roteiro do documentário, que depois das audições para a turnê a cantora aceitou o convite de Jose Gutierez e Luis Camacho, dois dos selecionados, para conhecer um “ballroom” de vogue, no bairro nova-iorquino do Harlem. Esses eventos, mistos de festa, competição e ritual eram promovidos por agremiações chamadas de casas, dentre elas a Xtravaganza, de onde vieram os bailarinos. Dessa experiência teria surgido a inspiração para a composição de ‘Vogue’. Ocorre que a obsessão com glamour, fama e celebridade que se eternizam no videoclipe se esvazia de todo o deboche à heterossexualidade compulsória e aos modelos embranquecidos tomados como neutros. A dança vogue emerge nas periferias sociais, culturais, raciais e sexuais dos EUA e sua constante referência àqueles que ocupam o centro das narrativas – sempre besuntada de perfídia e ironia – não é elogio condescende, mas crítica mordaz. Quando tal poética chega à indústria cultural sua dimensão crítica quase se extingue em favor do exotismo. Mas pouca é a diferença que tal problemática acarreta para carreira de Madonna.”
Quando levantei a hipótese de trazermos uma figura importante da casa Xtravaganza
para a Bienal, Claudia e Fabrício concordaram. Talvez porque soubéssemos que esse
não seria o desejo de um trio, mas o de uma comunidade que constrói a dança de hoje.

Como entrou em contato para fazer o convite e qual foi a reação de Gutierrez?
Mandei um e-mail para o Jose e ele me respondeu com alegria.

Você pensou nele especificamente? Por que?
Quando assisti “Strike a Pose”, José me impressionou de uma forma especial. A
relação com sua casa, com sua mãe, com seu companheiro e com sua dança tinham a
mesma intensidade, se posso me arriscar a dizer alguma coisa sobre isso. Parecia que
com o voguing ele havia construído uma forma de se comunicar com as pessoas. Não
era sobre estilo ou forma; voguing era uma linguagem.

About The Author

Related Posts

Leave a Reply

Your email address will not be published.